Literatura: a descrição mais perfeita sobre a morte!

Vou publicar o último capítulo do Livro de Leão Tolstoi - A Morte de Ivan Ilitch, uma novela com tradução de Carlos Lacerda, publicado pela Lacerda Editores, simplesmente fascinante a descrição de uma morte, leiam e tirem suas próprias conclusões, sobre a vida, a morte...

p. 89 a 91:

XII

 

Desde então começaram os gritos que duraram três dia e eram tão terríveis que se ouviam, através de duas portas fechadas, com uma sensação de horror. No momento em que respondeu à mulher, compreendeu que estava perdido, que não havia salvação, que chegara o fim, o fim do fim, e que as suas dúvidas continuavam sem resposta.

“Ah! Ah! Aaaah!”, gritava em vários tons. Começara gritando: “Não quero!”, e continuou gritando na letra “A”.

Durante três dias inteiros, nos quais o tempo não existiu para ele, lutou nesse saco negro, no qual era metido por uma força invisível e irresistível. Lutou como um homem condenado à morte luta nas mãos do carrasco, sabendo que não pode salvar-se. E a cada momento sentia que, a despeito de todos os seus esforços, se aproximava cada vez mais daquilo que o aterrorizava. Sentiu que a sua agonia era devida a essa penetração no saco negro e mais ainda por não ser capaz de se enfiar bem dentro dele. E o que impedia de entrar era a convicção de que a sua vida fora boa. Essa justificação da sua vida o reteve, impediu-o de ir para adiante e era o que mais o torturava.

Súbito uma força violenta golpeou-o no peito e na ilharga, dificultando-lhe ainda mais a respiração, e ele entrou no saco e lá, bem fundo, havia uma luz. O que lhe aconteceu foi como a sensação que às vezes se tem num vagão de estrada de ferro quando se pensa estar andando de costas, quando na realidade se vai para frente e de repente se percebe a verdadeira direção da marcha.

“Sim, não era nada disso”, pensou, “mas não importa. Isso ainda pode ser feito. Mas, que é isso?”, perguntou, e de repente ficou quieto.

Era no fim do terceiro dia, duas horas antes da sua morte. Precisamente nesse momento o menino entrou devagarinho no quarto e foi até junto da cama. O moribundo ainda gritava desesperadamente e sacudia as mãoes. A sua mão caiu na cabeça do menino e o menino agarrou-a, levou-a aos lábios e começou a chorar.

Nesse instante, precisamente, Ivan Ilitch sentiu-se cair, viu a luz no fundo do negro saco e foi-lhe revelado que, embora a sua vida não fosse o que poderia ter sido, ainda podia ser retificada. Pensou: “Isso, que é?” E ficou em silêncio, apurando o ouvido. Então sentiu que alguém lhe beijava a mão. Abriu os olhos, viu o filho e teve pena dele. A mulher veio até ele; olhou-a um instante. Ela o olhava, num desespero, boca aberta, lágrimas quentes no nariz e na face e um olhar dramático. Teve pena dela também.

“Sim, estou a atormentá-los”, pensou. “Eles lamentarão, mas será melhor para eles quando eu morrer.” Queria dizer isso, mas não teve forças. “Além disso, para que falar? Devo agir”, pensou. Com um olhar à mulher, apontou o filho e disse: “Leve-o... Tenho pena dele... tenho pena de você também...” Tentou acrescentar: “Desculpe”, mas disse: “Descanse”, e fez um aceno, sabendo que Aquele cuja compreensão importava iria compreender.

De repente sentiu muito vivamente que o que o atormentava e oprimia se ia dissipando, deixava-o por ambos os lados, por dez lados, por todos os lados. Tinha pena deles, devia agir de modo a não feri-los: descançá-los e libertar-se desse sofrimento. “Como é bom, como é simples!”, pensou. “E a dor?”, perguntou. “Que fim levou? Onde estás, dor?”

Prestou atenção à dor.

“Bem, aqui está. E agora? Deixe a dor doer.”

“E a morte... Onde está?”

Procurou o temor cotidiano da morte e não o encontrou.

“Onde esta? Que morte?” Não havia temor, porque não havia morte.

Em lugar da morte havia luz.

- Então era isto! – exclamou de repente, em voz alta. – Que alegria!

Para ele tudo acontecera num instante, e o sentido desse instante não mudou. Para os presentes a sua agonia continuou por mais duas horas. Algumas coisa roncava no seu peito, o corpo descarnado estremeceu. Depois, pouco a pouco, os estremecimentos e os estertores rarearam.

- Acabou! – disse alguém perto dele.

Ele ouviu esta palavra e repetiu-a na sua alma.

“Acabou a Morte”, pensou “A Morte já não existe!”

Aspirou profundamente, interrompeu a respiração, inteiriçou-se e morreu.

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